Ivy, a passos lentos e arrastados, chegou até a porta do apartamento de Lana. Estava com o cabelo desajeitado, suas roupas cheias de manchas escuras de fumaça, assim como a sua pele, e alguns machucados, um deles na costela coberto por sua mão, tentando amenizar a dor. Ela bateu, na esperança de que quem atendesse fosse Lana. Para sua sorte, foi o que aconteceu.
– Ivy?! – Lana parecia extremamente espantava, e estava. Não apenas pelo fato de ter uma pessoa caindo aos pedaços à sua frente como também pelo fato desta pessoa ser a ex-empregada de Tamara que ela ajudou a expôr.
– Nós precisamos conversar. – Ivy anunciou, desmaiando logo em seguida nos braços de Lana, que a segurou imediatamente, ainda assustada com a situação.

Cerca de alguns minutos antes…
Vince estava na sala de estar com Tamara. Macy, a empregada, chegou trazendo os pedidos. Para sua patroa, um vinho branco. Para Vince, um copo de whisky.
– Obrigada, querida. Você está despensada por hoje. – Tamara disse à sua serviçal, com um meio sorriso. Assim que a dita retirou-se, virou-se novamente para o motorista de seu marido, a fim de falar de negócios.
– Então, eu suponho que você me chamou aqui por algum motivo.
– Precisamos mesmo jogar esse joguinho bobo, sr. Morgan? Eu acredito que deixei bem claro por telefone o que preciso que você faça pra mim.
– Você disse que queria que eu eliminasse uma ameaça. Não sei bem o que isto significa.
Tamara caiu na gargalhada, porém de forma elegante, como sempre o fazia. – É sério que depois de mais de 15 anos você ainda me vê como a esposa burra do seu chefe? Garoto, você não faz a mínima ideia do que eu e Gordon passamos juntos. Eu sei todos os podres dele e ele os meus, inclusive eu sei muito bem os seus e o que você faz nas horas livres para ganhar um salário extra, então eu sugiro que você pare de tentar me tirar para burra, porque nós dois sabemos que eu não sou.
– Se você soubesse o que eu faço, não me ameaçaria. – Ele disse, dando um meio sorriso, enquanto bebia um pouco de seu whisky.
– Ah, querido, não é uma ameaça, eu te garanto. É uma proposta, e das grandes. Você é muito importante pra mim esta noite, por isto eu prometo te dar um cheque bem gordo assim que eu tiver certeza de que você finalizou o serviço.
Vince pôs o copo à mesa novamente. – Ok, digamos que eu aceite. Quem seria esta “ameaça”?
Tamara abriu um grande e convencido sorriso.

Uma hora depois…
Ivy abriu os olhos. Ainda tonta, sua visão estava meio borrada, até que, enfim, conseguiu ver mais nitidamente. Lana, Nathan e Alicia – os dois últimos até então não conhecidos por ela – estavam encarando-a sentados no sofá à frente ao em que ela estava deitada. Ivy assustou-se, apesar de ter vindo até o apartamento de Lana.
– Então, pelo visto temos bastante sobre o que conversar. – Lana apontou, com um tom meio sarcástico. Toda esta situação era extremamente sem sentido para todos os envolvidos. Ivy tentou se levantar lentamente para sentar-se, porém Lana interviu. – Eu não faria isto se fosse você, colocamos um pano aí para parar o seu sangramento, mas não vai aguentar por muito tempo. Se você levantar, vai apenas piorar. – Ivy permaneceu deitada. Apenas ajeitou-se para maior conforto.
– O que diabos aconteceu com você? – Alicia perguntou, confusíssima.
– E quem é você, por acaso? – Ivy “respondeu”, ainda mais confusa.
– Ela é uma amiga. Eles dois são, você pode confiar neles.
– Posso? – Ivy perguntou ironicamente.
– Tanto quanto pode confiar em mim, o que eu acredito ser bastante, já que você veio aos pedaços até aqui. Dá pra começar dizendo o que aconteceu com você?
– Pra começar, eu acho que alguém está tentando me matar.
– O quê? Quem?! Tamara?
– Não. Gordon.
– Mas porque ele te mataria? Você tem algum podre nele? – Nathan acrescentou.
– Ele não precisa de motivo, são os Davis. Eles são monstros, é isto que fazem. – Lana interrompeu, frustrada com o fato da família que armou para seu pai ainda estar impune.
– Pra falar a verdade, eu não tenho nada. Fui ao escritório dele esses dias ameaçá-lo, mas eu não tinha realmente nada que fosse incriminá-lo e ele sabia disso.
– De qualquer forma, você precisa ir para um hospital urgentemente. Se não tratar esses ferimentos, não vai demorar muito até você desmaiar de novo. – Disse Alicia.
– Ela tem razão, precisamos te levantar ao hospital mais próximo. – Lana levantou-se, assim como Alicia e Nathan, – este foi ao banheiro antes.

Enquanto isto, a cerca de 200 metros de distância dali, no teto do prédio à frente, a mira de um rifle estava sobre a janela da sala de estar de Lana. À vista do olho que estava sobre a mira da arma, estavam Lana, Alicia e Ivy. Do outro lado da mira, estava Vince, pronto para atirar em seu próximo alvo, este encomendado por Tamara, Alicia.
Vince estava extremamente surpreso ao ver Ivy viva, ou, perto disso, e na presença de Alicia e Lana. Viu que ela estava machucada, mas frustrou-se ao perceber que seu plano não foi como o esperado. Ainda assim, viu isto como uma oportunidade de acertar dois alvos num tiro só, literalmente. De qualquer forma, resolveu antes ouvir o que elas estavam falando, a curiosidade falava mais alto. Estariam Lana, Alicia e Ivy trabalhando juntas para derrubar os Davis? Ele pensou. Pegou um aparelho ultrassônico em sua mochila que o permitia ouvir a metros de distância, dependendo de onde apontasse.
No apartamento, Lana e Alicia estavam arrumando-se para levar Ivy. – Olha só, pega as chaves do meu carro e fiquem esperando no elevador que eu já desço com vocês, ok? – Lana pediu a Alicia, que estava segurando Ivy em seu ombro.
– Tudo bem, só não demora.
Antes que elas pudessem ir até o estacionamento, Vince colocou sua arma, aparelho e quaisquer coisas que tinha expostas ali de volta na mochila e correu até as escadas do prédio. Precisava chegar até o estacionamento antes delas.
Enquanto isto, no apartamento, Lana bateu na porta do banheiro. – Você vai demorar, Nathan?
– Não, já estou saindo. – Lana ouviu o som da descarga, e em seguida, da torneira da pia. Nathan estava lavando as mãos. Em seguida, abriu a porta. – Vamos?
– Olha, eu acho melhor você ficar, tudo bem?
– O quê?! Claro que não, eu vou com vocês!
– Olha, eu não sei que horas a Laurie vai voltar, e com essa coisa do Gordon, eu não sei o que pode acontecer. Eu estou com medo, Nathan. Com medo de que alguma coisa possa acontecer.
– Então deixe-me protegê-la. – Nathan pôs a mão sobre o ombro de Lana. Ela olhou para sua mão, estranhando o gesto. Ele então retirou-a, não queria deixar as coisas estranhas entre os dois. – Por favor.
– Eu agradeço, mas eu realmente prefiro que você fique aqui, ok? Por favor. – Lana deu um beijo em seu rosto e acariciou-o de leve. Nathan apreciou, porém não da mesma maneira que Lana queria deixar a entender. Em seguida, ela saiu e foi encontrar Alicia e Ivy no elevador.

No estacionamento, Vince foi até a vaga que correspondia ao apartamento de Lana, sabia o número devido ao número que aparecia em sua porta de entrada, visível da janela mirada por ele. Havia encontrado Alicia através de seus diversos contatos na cidade com acesso às câmeras públicas espalhadas pelas ruas. Como Alicia e Lana haviam ido para casa juntas, Vince já sabia antes de chegar que as duas estavam juntas. Isto seria uma ótima reviravolta para contar à Tamara, ele pensou.
Foi, então, até o carro estacionado na vaga e, da forma mais rápida que conseguiu, cortou os freios do automóvel. Em seguida, saiu correndo dali, sem que fosse visto.
Alguns minutos depois, desceram Lana e Alicia carregando Ivy, uma em cada ombro, até o carro. As três chegaram até ele, e em seguida, entraram, a fim de dirigir até o hospital mais próximo. Alicia estava no volante, enquanto Lana resolveu ficar no banco de trás com Ivy. Sem tempo para disperdiçar, Alicia pôs logo as chaves e deu a partida, as três sairam dali.

Enquanto isto, Vince, em seu carro preto, ligou para Tamara a fim de deixá-la a par dos acontecimentos recentes. Ela atendeu.
– Vince? Você fez o que eu pedi?
– Eu acho que você vai ficar muito satisfeita em fazer que o serviço já está em progresso.
– Muito obrigada. Eu garanto que você será generosamente recompensado. – Tamara desligou.

Lana, Alicia e Ivy estavam a caminho do hospital. Lana resolveu checar o “curativo” de Ivy que havia providenciado para que ela não sofresse de hemorragia. Enquanto isto, Alicia chegava perto de um sinal amarelo, e decidiu pressionar o freio.
Para a sua surpresa, as luzes do semáforo ficaram vermelhas e o carro continuou locomovendo-se. Sua sorte foi que nenhum carro havia começado a andar na rua do sinal verde. Alicia tentou frear novamente, porém o carro nem ao menos diminuir a velocidade diminuia, começou a assustar-se.
– Lana, temos um problema!
– O que foi?
– O freio não está funcionando, o carro não está parando!
– O quê? Pisa mais forte!
– Eu já tentei, estúpida! Me ajuda!
Ivy estava quase desmaiada, então não estava ciente do que acontecia, Lana deitou-a no banco e foi para a frente tentar ajudar Alicia.
– Troca de lugar comigo, eu vou assumir o volante. – E assim o fez. Alicia foi para o banco do carona. Lana tentava e tentava e o carro continuava a andar rapidamente, sem indícios de que iria parar. – Meu Deus, o que nós vamos fazer?!
Sem pensar duas vezes, Alicia pegou seu celular e ligou para Nathan. Ele atendeu-a. – Nathan, olha, a gente não tem muito tempo. Você precisa escutar! Alguém cortou os freios do carro, eu acho que quem quer que tenha tentado matar a Ivy, está tentando terminar o serviço. Você precisa nos ajudar agora!
– Me diz onde vocês estão que eu vou resgatá-las agora! – Nathan pegou o casaco e saiu correndo.

Alguns minutos depois, Lana havia mudado o percurso e dirigiu-as até a parte rural da cidade, com ruas longas e desertas onde havia menos riscos de acidente. O carro já estava em alta velocidade, e com Ivy em seu estado, pular era de um risco enorme. Estavam atualmente em uma estrada reta deserta com nada além de grama fora do asfalto.
De repente, Alicia recebeu uma ligação de Nathan, ela rapidamente atendeu-o.
– Onde vocês estão?!
– Estamos a uns 5km da cidade, acabamos de passar pela fazenda dos Willow, na estrada longa em direção à montanha. Venha logo, se não vamos cair!
– Chego aí em 10 minutos! – Nathan pôs o pé no acelerador o mais fundo que pôde, a fim de alcançá-las.

Lana aproximava-se cada vez mais da montanha no fim da estrada, e estava começando a ficar preocupada, ia ter que tentar fazer a volta, até que, de repente, um carro apareceu atrás, em alta velocidade.
– Ei, Alicia, olhe! Eu acho que é o Nathan.
Alicia olhou para trás e viu as luzes do carro piscando, era um dos carros de Nathan, de fato. O carro aproximava-se cada vez mais. Lana, então, saiu do centro da estrada e foi para a lateral direita, para dar espaço para Nathan. Ele, então, dirigiu até o lado do carro em que estavam Lana, Alicia e Ivy e ficou pareado com elas. Nathan resolveu abaixar o vidro da porta direita do carro, Lana fez o mesmo.
– Lana, entre!
– Mas e elas?!
– Entre, depois elas! Vamos, não temos muito tempo!
Agoniada, Lana deixou Alicia no controle do volante, e pôs os braços para fora da janela, a fim de alcançar a de Nathan. Ele tentou aproximar-se um pouco mais. Lana pôs a cabeça, e em seguida, o corpo até a cintura para fora para alcançar a janela do carro, porém, quando impulsionou-se para frente, suas mãos desviaram-se da porta e Lana caiu. Por sorte, Alicia a segurou pela calça, o que a manteve de espatifar-se no chão. Assim que Lana ergueu-se novamente, Nathan, então, aproximou seu carro ainda mais, e Lana finalmente pulou para dentro de seu carro.
Porém, havia um problema ainda maior no momento. O tempo que foi disperdiçado tentando fazer com que Lana fosse salvo atrapalhou a percepção de todos quanto a proximidade em que os dois carros estavam do topo da montanha que aproximava-se, e a curva junto dela, que levaria os dois automóveis ao fundo do precipício. Todos gelaram.
Nathan, sem nem pensar, alertou Alicia e tentou puxá-la para dentro de seu carro, porém, Ivy ainda estava dentro. Ela alcançou-a para arrastá-la para o banco da frente e pô-la dentro do carro de Nathan primeiro. Entretanto, era tarde demais. A apenas alguns metros da montanha, e Ivy sem poder locomover-se sem ajuda, a única opção de Alicia era dobrar e tentar fazer a volta. Mas a proximidade do carro de Nathan sobre o dela a impediu de o fazer, e agora, a apenas a alguns passos da ladeira, o destino era inevitável.
Nathan, sabendo que não havia mais nada que pudesse fazer, freou rapidamente seu carro e Alicia, perto da janela com Ivy de seu lado e agora longe do carro de Nathan, tentou fazer a volta, mas a grande curva fez com que o carro apenas caísse de lado… ladeira abaixo. O veículo não capotou, nem bateu em nenhuma parte da montanha, o único indício de um acidente foi o som da explosão que resultou do contato do automóvel com o fundo do abismo. Em seguida, as chamas, e a certeza de que quem quer que estivesse no carro, agora não está mais. Apenas seus corpos, incinerados.

CONTINUA…